Feminicídio no Brasil: violência estrutural e o desafio do Estado

O Brasil voltou a registrar números alarmantes de feminicídio. Em 2025, mais de 1.400 mulheres foram assassinadas simplesmente por serem mulheres — quase quatro mortes por dia. Esses dados não podem ser tratados como fatalidade nem como desvios individuais. O feminicídio é uma violência estrutural, enraizada no patriarcado, nas desigualdades sociais e na histórica omissão do Estado brasileiro.

Durante anos, políticas de proteção às mulheres foram desmontadas, esvaziadas ou tratadas como “agenda ideológica”. O resultado é visível: redes de acolhimento fragilizadas, delegacias especializadas sucateadas e ausência de políticas consistentes de autonomia econômica feminina. Quando o Estado se retira, a violência avança.

É nesse contexto que se insere o desafio atual. O governo Lula recolocou o enfrentamento à violência contra as mulheres no centro da agenda pública, retomando políticas, reconstruindo institucionalidades e reconhecendo que não há desenvolvimento possível com mulheres morrendo dentro de casa. A recriação do Ministério das Mulheres e a rearticulação de políticas intersetoriais são passos fundamentais, ainda que insuficientes diante da dimensão do problema.

Do ponto de vista econômico, o feminicídio tem classe, raça e território. As principais vítimas seguem sendo mulheres pobres, negras e periféricas, revelando como a violência de gênero se combina com desigualdade de renda, precarização do trabalho e ausência de serviços públicos. Combater o feminicídio exige, portanto, mais do que repressão penal: exige planejamento, orçamento e políticas sociais integradas.

Os números seguem altos porque os danos são profundos e acumulados. Reconstruir políticas públicas leva tempo. Mas a direção importa. Tratar o feminicídio como problema estrutural — e não como exceção — é condição para salvar vidas.

No Brasil, enfrentar o feminicídio é uma escolha política. E hoje, mais do que nunca, é uma escolha que define o sentido da democracia.

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Soberania sob cerco: a Venezuela como aviso e o Brasil no horizonte do império americano

A invasão da Venezuela por Donald Trump não é um desvio isolado nem um excesso retórico de valentia. É mais um capítulo de uma longa tradição imperial dos Estados Unidos contra a América Latina — uma política que atravessa séculos, governos democratas e republicanos, sustentada pela ideia de que o continente é quintal estratégico, reserva de recursos e zona de tutela permanente.

Do México amputado no século XIX ao golpe no Chile em 1973; da Guatemala de 1954 à Nicarágua dos anos 1980; do bloqueio criminoso a Cuba às operações híbridas contra Bolívia, Honduras e agora Venezuela, o método se repete: desestabilização política, guerra econômica, sanções ilegais, financiamento de opositores e, quando isso falha, a ameaça ou o uso direto da força. Trump apenas escancarou, sem verniz diplomático, aquilo que sempre esteve no núcleo da política externa norte-americana: soberania latino-americana é tolerada apenas quando submissa.

A Venezuela paga o preço de ousar controlar seu petróleo, definir alianças próprias e insistir em um projeto nacional fora da órbita de Washington. A invasão aberta e escancarada, não é defesa da democracia, mas punição exemplar. Um recado ao Sul Global: autonomia tem custo.

Diante disso, a pergunta é inevitável: quem será o próximo? O Brasil? Por quê? Porque concentra território, água, biodiversidade, energia, mercado interno e reservas estratégicas de terras raras, insumos centrais para a transição energética, a indústria militar e as novas tecnologias. Quando o Brasil ensaia soberania sobre esses ativos, vira alvo. A história ensina: ignorar o padrão é repetir tragédias; enfrentá-lo exige memória, integração regional e coragem política.

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Entendendo a crise das Havaianas: uma análise política e econômica

A crise recente envolvendo as Havaianas foi lida, no debate público brasileiro, mais como um episódio de guerra cultural do que como um fenômeno econômico. E esse é justamente o erro central. Quando se observa a trajetória da empresa com as ferramentas corretas da economia política, fica evidente que o barulho ideológico produzido pela direita não explica nem a origem nem os desdobramentos da crise.

Os números mostram que os problemas da Alpargatas começaram antes do episódio que virou munição para o boicote político. Em 2023, a empresa acumulou prejuízo da ordem de R$ 1,8 bilhão e uma retração de 15,7% nas vendas globais. Trata-se de uma crise típica de reestruturação produtiva, posicionamento de marca e reorganização de cadeias globais de valor — e não de um colapso causado por memes, vídeos ou indignação digital.

A extrema-direita brasileira, ao reduzir tudo à lógica do “cancelamento”, ignora um dado fundamental do capitalismo contemporâneo: o mercado relevante das grandes marcas é internacional. Rankings globais de moda indicam que, em 2025, as Havaianas figuram como um dos produtos mais desejados do mundo, com crescimento de 34% nas buscas globais e expansão significativa em mercados fora do Brasil. O consumo não responde à gritaria doméstica, mas à dinâmica concreta da circulação de mercadorias em escala mundial.

O dado mais revelador vem do pós-crise: após o pico do boicote ideológico, as vendas internacionais da marca cresceram cerca de 20% no período subsequente, e o faturamento global acumulou alta superior a 80% em 12 meses. O capital não se move por ressentimento, mas por valorização.

Quem perde, portanto, não é a empresa. Quem perde é uma direita que troca análise materialista por moralismo raso, confundindo bolha digital com economia real. O mundo é maior que o WhatsApp político — e o capital sabe disso muito bem.

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Os Novos Triângulos do Poder: Brasil, China e Estados Unidos

A geopolítica do século XXI se redesenha diante dos olhos de um Brasil que tenta equilibrar pragmatismo e soberania. De um lado, a China consolida-se como o principal parceiro comercial do país, comprando soja, minério e petróleo e investindo em infraestrutura e tecnologia. De outro, os Estados Unidos seguem sendo uma potência militar e financeira incontornável, cuja influência ainda permeia organismos multilaterais, cadeias produtivas e setores estratégicos do Estado brasileiro.

O desafio é que, ao contrário da Guerra Fria, a disputa sino-americana não se dá por territórios, mas por controle de fluxos — de dados, energia, conhecimento e valor agregado. O Brasil, com seu peso ambiental e potencial industrial, pode ser pivô de uma nova diplomacia produtiva e sustentável, mas precisa escapar do papel de mero exportador de commodities. A relação com a China oferece oportunidades de industrialização verde e tecnológica, desde que o país saiba negociar transferência de tecnologia e não aceite o lugar subalterno na divisão internacional do trabalho. Já com os EUA, há espaço para cooperação em inovação e economia criativa, mas é preciso cuidado: a pressão por alinhamento geopolítico tende a reativar o velho dilema da dependência.

Entre Washington e Pequim, o Itamaraty deve reafirmar o Sul Global como espaço de construção autônoma — não como “terceira via” passiva, mas como bloco de países que ousa pensar o desenvolvimento fora do eixo dólar-yuan. O Brasil tem condições de ser mediador e protagonista, desde que compreenda que soberania, hoje, é também capacidade tecnológica e ambiental.

O futuro da diplomacia brasileira dependerá menos de escolher lados e mais de afirmar o seu próprio.

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Brasil e Bahia rumo à COP-30: o futuro em planejamento

A Estratégia Brasil 2050 e o PDI Bahia 2050 mostram grande sinergia para planejar o futuro com base em sustentabilidade, inovação e justiça social. A estratégia nacional propõe um novo ciclo de desenvolvimento verde, com foco em reindustrialização limpa e fortalecimento institucional. Já o plano baiano traduz essa visão em ações territoriais, priorizando energia renovável, bioeconomia, agricultura familiar de baixo carbono, cidades inclusivas e economia criativa.

A COP-30, que neste ano será sediada em Belém, não é apenas uma conferência ambiental — é um marco para repensar o desenvolvimento brasileiro. O evento coloca o país no centro do debate sobre clima e transição ecológica, e a Bahia desponta como um dos estados mais preparados para transformar compromissos em políticas concretas.

Na COP-30, Brasil e Bahia têm a chance de mostrar que o planejamento de longo prazo é o caminho para uma transição justa e produtiva. Ao articular políticas, ciência e participação social, a Bahia pode ser exemplo de que é possível crescer protegendo o meio ambiente e reduzindo desigualdades.

Procure saber: Estratégia Brasil 2050 e Plano de Deasenvolvimento Integrado – PDI Bahia 2050

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Planejar o Longo Prazo é um Ato de Responsabilidade Intergeracional

Ranieri Muricy Barreto, é superintendente de Planejamento Estratégico da SEPLAN-Governo da Bahia, economista e professor universitário

O futuro não é um destino inevitável, mas uma construção coletiva. Esta é a premissa que inspira o novo ciclo de planejamento estratégico da Bahia, materializado na atualização do Plano de Desenvolvimento Integrado – o PDI Bahia 2050. Ao projetar um horizonte de 25 anos, estamos reafirmando que o Estado deve liderar a formulação de uma visão de futuro estruturada, pactuada e orientadora das ações públicas.

Planejar o longo prazo, em um país marcado pela fragmentação política e pelas urgências do cotidiano, é um gesto contra-hegemônico. Significa, numa leitura de Celso Furtado, recusar o subdesenvolvimento como destino e colocar a capacidade de imaginar alternativas no centro da ação pública. O PDI Bahia 2050 não é apenas um documento técnico — é uma ferramenta política, social e simbólica, que conjuga método e compromisso ético.

O governo da Bahia conduziu um processo participativo e tecnicamente robusto, com escutas territoriais, entrevistas com especialistas, oficinas temáticas e análise de cenários. Mais de 70 indicadores estaduais e 50 macroterritoriais foram elaborados para qualificar o diagnóstico. O plano parte de um olhar atento às tendências contemporâneas — como a transição energética, o avanço da agroecologia, o crescimento do turismo sustentável e as mudanças demográficas aceleradas —, mas também reconhece riscos estruturais: os efeitos das mudanças climáticas, a concentração da economia no litoral e a necessidade de uma gestão pública mais integrada e resolutiva.

Como ensinava Ignácio Rangel, o desenvolvimento não ocorre em linha reta, mas em ciclos e rupturas. Por isso, optamos por trabalhar com cenários múltiplos, que nos permitem pensar políticas públicas sob diferentes futuros possíveis. Planejar é organizar a ação diante da incerteza — não para controlá-la, mas para enfrentá-la com inteligência estratégica.

Outro pilar do plano é a governança. Como alertava Maria da Conceição Tavares, o Estado tem um papel central do desenvolvimento, sem ele não há desenvolvimento. O PDI Bahia 2050 estrutura mecanismos de coordenação, articulação institucional e integração o Plano Plurianual (PPA) e, particularmente, com o orçamento público. Mas a responsabilidade intergeracional exige ir além do Estado: envolve também o engajamento do setor privado, da academia, dos movimentos sociais, da juventude e da sociedade civil organizada. É dessa governança inclusiva que nasce a possibilidade de um futuro que não seja apenas sonhado, mas efetivamente construído de forma estratégica e coletiva.

A juventude ocupa lugar central porque será a principal beneficiária das transformações de longo prazo e, ao mesmo tempo, a geração chamada a construir o seu próprio futuro, assumindo liderança em inovação, cidadania e sustentabilidade. Ao ampliar essa rede de corresponsabilidade, o PDI transforma visão de futuro em Eixos, Temas e Objetivos Estratégicos que se desdobram em estratégias de desenvolvimento do Estado, com metas e indicadores de longo prazo.

O PDI é, acima de tudo, uma convocação à responsabilidade intergeracional. A juventude, que viverá plenamente os próximos 25 anos, não pode ser apenas destinatária das políticas, mas protagonista na sua concepção, execução e monitoramento. A experiência internacional nos mostra — da Finlândia à Coreia do Sul — que nações que planejam com visão estratégica e continuidade institucional tendem a responder melhor aos desafios sociais e tecnológicos do século XXI.

Planejar o futuro é um ato político de coragem. É garantir que o desenvolvimento não seja privilégio de poucos, mas um direito de todos os baianos e baianas — em todos os territórios, com justiça social, sustentabilidade, inovação e protagonismo juvenil. Que o futuro que desejamos não seja apenas sonhado, mas estrategicamente construído.

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Bolsonaro e a engrenagem de lavagem que ameaça a democracia: R$ 44 milhões em transações suspeitas

O relatório da Polícia Federal revela que Jair Bolsonaro movimentou cerca de R$ 44,3 milhões entre março de 2023 e junho de 2025, o que levanta questionamentos graves sobre a natureza dessas receitas e sua transparência. O uso maciço do Pix — cerca de R$ 20,7 milhões — ressalta não apenas a conveniência da ferramenta, mas também sua opacidade em situações de potencial irregularidade. Adicionalmente, transações atípicas foram identificadas: um repasse de R$ 2 milhões a Eduardo Bolsonaro em maio de 2025; pequenas remessas de R$ 30 mil e R$ 40 mil enquanto Eduardo estava nos EUA; uma transferência de R$ 2 milhões a Michelle Bolsonaro na véspera de depoimento à PF; além de quase R$ 131 mil em dinheiro vivo em 40 operações, entre janeiro e julho de 2025.

Tais movimentações provocam sérias inquietações do ponto de vista econômico e institucional. Vejo que esse volume expressivo de recursos, especialmente via Pix, exige auditorias rigorosas e imediatas. Estã claro que se trata de bandidagem, quadrilha que atua na lavagem de dinheiro com esquemas ilegítimos que agravam a erosão da confiança pública nas instituições. Transparência fiscal não é mérito ideológico, é condição essencial para a legitimidade do sistema democrático. Não basta a defesa alegar surpresa ou ausência de descumprimento de medidas cautelares: é imprescindível que as investigações avancem rápido e com profundidade, sob pena de normalizarmos práticas que corroem o mínimo de integridade que se espera da elite política e econômica.

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25 de Julho – Agricultura Familiar como Pilar do Desenvolvimento Sustentável na Bahia

25 de Julho – Agricultura Familiar como Pilar do Desenvolvimento Sustentável na Bahia
Por Ranieri Muricy Barreto

O Dia Internacional da Agricultura Familiar, celebrado em 25 de julho, é mais do que uma homenagem simbólica. É um chamado à valorização de quem alimenta o Brasil e cuida do território. Na Bahia, essa data assume um peso ainda maior: somos o estado com o maior número de estabelecimentos da agricultura familiar no país, com mais de 600 mil unidades produtivas distribuídas nos mais diversos biomas e territórios.

Dados do Censo Agropecuário apontam que 87% dos estabelecimentos rurais baianos se enquadram na categoria de agricultura familiar. Este segmento não é apenas numeroso — ele responde por quase um quarto da produção agropecuária estadual, com papel decisivo na segurança alimentar, na preservação da sociobiodiversidade e na dinamização econômica dos municípios do interior.

O perfil dessa agricultura também revela transformações importantes: há uma crescente presença de jovens e mulheres no campo, fortalecendo o protagonismo de novos sujeitos sociais comprometidos com práticas agroecológicas, geração de renda e sucessão rural.

Nos últimos anos, programas públicos e crédito rural, como o Pronaf, vêm sendo ampliados. Na safra 2023/2024, foram R$ 2,97 bilhões investidos só na Bahia, um avanço de mais de 50% em relação à safra anterior. Ao todo, somando políticas estaduais e federais, são mais de R$ 4 bilhões aplicados na estruturação da produção, agroindustrialização, comercialização e assistência técnica.

Esse esforço começa a se refletir nos territórios: a Bahia lidera a produção de umbu, licuri, caprinos e ovinos, e avança em iniciativas sustentáveis como os sistemas agroflorestais no sul do estado e a difusão de tecnologias sociais voltadas ao semiárido, como o programa Reniva, que distribui mudas de mandioca com alta produtividade e resistência.

A agricultura familiar é, antes de tudo, um modo de vida. Nela estão enraizados saberes tradicionais, práticas produtivas resilientes e valores que apontam para uma nova ruralidade — mais justa, diversa e sustentável.

Neste 25 de julho, celebrar a agricultura familiar é reafirmar seu papel estratégico no desenvolvimento da Bahia. Mais que um setor produtivo, ela é um vetor de transformação social, ambiental e econômica.

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Centro de Governo como pilar estratégico: reconhecimento nacional ao planejamento de longo prazo

Receber o reconhecimento nacional no I Congresso Conseplan: Reconstrução do Planejamento Nacional, com o artigo “Centro de Governo como ferramenta estratégica para gestão subnacional”, de autoria de Ariadne Muricy Barreto, Isabella Paim e Ranieri Muricy, é mais que uma honra profissional: é um sinal de que o planejamento voltou à cena como uma das principais ferramentas de reconstrução institucional no Brasil. Entre 206 trabalhos apresentados, sermos destacados entre os 9 mais relevantes mostra que há sede por governança estratégica e articulação federativa.

Este prêmio dialoga diretamente com outro artigo que defendi: Planejamento de longo prazo para um desenvolvimento sustentável: a convergência entre o curto e o longo prazos. Ambos os textos compartilham a crítica à armadilha do imediatismo e à cultura da descontinuidade que marcam nossa trajetória histórica. Reforçam o papel do Estado como agente estratégico, capaz de pensar o futuro com justiça social, sustentabilidade e inovação — como Celso Furtado, Hirschman e Amartya Sen nos ensinaram.

Dedico este reconhecimento aos céticos que nunca acreditaram no planejamento — e também aos planejadores céticos que esqueceram como se pensa o futuro. Planejar é resistir ao improviso, à fragmentação e ao curto-prazismo que corroem a capacidade do Estado de servir à maioria. Planejar é, sobretudo, um ato de esperança política.

Este reconhecimento não é um ponto de chegada, mas um impulso para seguirmos contribuindo com a reconstrução do planejamento público em nosso país. Que a Estratégia Brasil 2050, e o Planejamento de Longo Prazo reforcem o compromisso com o desenvolvimento territorial integrado e ganhem força e voz. O futuro precisa de nós — e ele começa agora.

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Educação e produtividade: o futuro do trabalho no Brasil

O crescimento da produtividade do trabalho no Brasil tem sido insuficiente diante das necessidades de desenvolvimento inclusivo. Entre 1995 e 2024, o avanço médio foi de apenas 0,8% ao ano, reflexo de um modelo econômico marcado por incertezas, juros estruturalmente altos e um ambiente de negócios que favorece setores já consolidados, em detrimento da inovação e da produção de valor, segundo dados do Observatório da Produtividade (FGV-IBRE).

Apesar disso, houve progresso significativo no capital humano. A escolaridade da força de trabalho melhorou: em 1992, dois terços não tinham o ensino fundamental completo; em 2024, dois terços alcançaram ao menos o ensino médio. Essa transformação sustentou parte do modesto crescimento da produtividade e contribuiu para reduzir a informalidade e ampliar a renda. O Índice de Capital Humano cresceu 2,2% ao ano no período, demonstrando o papel da educação no desenvolvimento.

Entretanto, os ganhos se concentram na agropecuária, setor altamente tecnificado, mas com baixa absorção de mão de obra. Serviços e indústria, que empregam a maioria da população, seguem estagnados ou em queda.

Na Bahia, o cenário é semelhante. Segundo o PDI Bahia 2035/2050, no cenário inercial, a produtividade — medida como produto por trabalhador — cresce 1% ao ano, mantendo-se em 63% da média nacional. No cenário de referência, com políticas públicas consistentes, pode crescer 2,6% ao ano, alcançando 81% da média nacional em 2050. Isso representaria um salto de R$ 66 mil para R$ 138 mil por trabalhador, a preços de 2022.

Superar esse quadro exige mais que reformas pró-mercado: requer reorganização orçamentária, investimento em infraestrutura, valorização do trabalho e um Estado capaz de liderar um projeto nacional de produtividade com inclusão, aumentos salariais, integração produtiva e soberania econômica.

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